Espirito Santo: como tudo começou

Como começa a história do estado do Espírito Santo? Essa é uma pergunta que, invariavelmente, quase sempre tem como resposta do senso comum o ano de 1535 e a chegada de Vasco Fernandes Coutinho ao território que se tornaria Vila Velha, o palco da colonização portuguesa em território capixaba.

Durante muitos anos, nas salas de aula de diferentes unidades de ensino do Brasil, a chegada dos portugueses era considerada o ponto de partida da história brasileira.

Recordo-me que, durante minha infância, uma das principais perguntas feitas por meu pai para testar meu conhecimento, e também o dos meus irmãos, era justamente quem havia “descoberto” o Brasil.

É claro que essa era uma das perguntas aparentemente mais fáceis de serem respondidas. Afinal, parecia haver uma espécie de consenso, durante a década de 1990, de que o Brasil fora “descoberto” – como se antes estivesse abandonado ou escondido do restante do mundo – pelo navegador português Pedro Álvares Cabral, no dia 22 de abril de 1500.

Uma resposta muito mais decorada do que assimilada e aceita com todas as suas implicações.

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(Formação dos heróis nacionais)

Desde xxx há várias discussões entre historiadores sobre qual expressão seria mais adequada para ser utilizada. (Descobrimento, achamento, chegada, invasão)

Com a queda da Monarquia e a banished da família real, o novo governo republicano enfrentava um problema crucial de legitimidade: a proclamação havia sido um movimento essencialmente militar e elitista, sem grande participação popular (o historiador Aristides Lobo cunhou a célebre frase de que o povo assistiu a tudo “bestializado”). Para consolidar o novo regime e formar um sentimento de unidade nacional, era necessário criar novos mitos, símbolos e heróis que substituíssem as figuras do Império, como D. Pedro I e D. Pedro II.

Xxx explica que, na verdade, essa teoria surge no final do século 19, logo após o golpe que provocou a mudança do regime monárquico, com a expulsão da família real do Brasil, para o republicano…

ver: https://share.gemini.google/44VWOqbxdGnc

Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) – Onenote – história geral e do Brasil 

https://bibliotecaonlinedahisfj.wordpress.com/wp-content/uploads/2015/02/josc3a9-murilo-de-carvalho-a-formac3a7c3a3o-das-almas-o-imaginc3a1rio-da-repc3bablica-no-brasil.pdf

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Pode parecer uma tentativa de revisionismo histórico, que muitas vezes serve apenas para complicar algo que, em tese, é aparentemente simples. Afinal, de fato, no dia 22 de abril daquele ano, uma esquadra com 13 caravelas – lideradas por Cabral – chegou à região da atual cidade de Porto Seguro, na Bahia.

No local havia um monte que, pelo fato de estar na época da páscoa para os cristãos, foi batizado pelos navegadores de “Monte Pascoal”.

Por muitos anos, esse momento foi descrito em diferentes livros como o ponto de partida para a chegada da “civilização” numa região descrita como sendo repleta de floresta, bichos e índios. Sendo os nativos brasileiros quase totalmente deixados de lado pela escrita histórica, ou citados de forma pejorativa como bárbaros e selvagens.

No entanto, esse tipo de visão – onde a Europa é classificada como modelo universal de civilização a ser seguido pelos demais países mundo afora – desconsidera aspectos importantes sobre a presença humana no território que seria mais tarde o Brasil. Milênios antes daquele ano, já havia a presença de seres humanos nessa parte do planeta.

Humanos chegam à “América”

A ocupação do atual continente americano vem sendo estudada por décadas.

Apesar de ainda não haver uma resposta definitiva sobre o caminho percorrido pelos humanos até chegarem aqui, uma teoria – bastante aceita por cientistas em diferentes países – afirma que grupos humanos, com semelhanças físicas próximas das populações da Mongólia, teriam vindo da Ásia. 

Essa teoria afirma, ainda, que a chegada desses povos à América aconteceu graças ao congelamento do Estreito de Bering, que separa o continente asiático da porção norte da América.

A travessia aconteceu, segundo a teoria, durante um período em que diversas áreas do mundo ficaram cobertas de gelo, e a baixa no nível das águas do Oceano Glacial Ártico, que uniu o continente asiático à América, no Alasca, permitindo a migração do homem pré-histórico daquela região.

Não há consenso sobre quando isso aconteceu. Diferentes pesquisas indicam que teria ocorrido entre 20 e 35 mil anos atrás. Contudo, investigações científicas ainda mais recentes trabalham com um período de 50 mil anos atrás. 

No Piauí, porém, existem evidências de ocupações mais antigas. Segundo o trabalho desenvolvido pela arqueóloga Niéde Guidon (1990) em São Raimundo Nonato, na Serra da Capivara, existiam grupos humanos há cerca de 50 mil anos, embora nem todos os arqueólogos, sobretudo os norte-americanos concordem com essas datações.

Esse importante trabalho desenvolvido por Niéde Guidon pode ser observado no documentário exibido, em 1990, no programa Globo Ciência:

​A teoria mais aceita pela comunidade científica foi apresentada pela primeira vez no ano de 1590, no livro História Natural e Moral das Índias, escrito pelo padre espanhol José de Acosta — um jesuíta que se dedicava à poesia, aos estudos da história e do universo, e que foi para o Peru em 1571 e também morou no México. Esta obra fundamental pode ser consultada na Amazon em sua versão em espanhol ou em inglês.

Entretanto, a teoria só passaria a ser aceita pela ciência mais de trezentos anos depois, na década de 1930, depois de uma expedição arqueológica nas proximidades da cidade de Clovis, estado do Novo México, nos Estados Unidos.

No local foram encontrados artefatos semelhantes a outros que haviam sido descobertos anteriormente na região da Beríngia.

Atualmente, é consenso entre os especialistas que, durante a última era glacial, a concentração de gelo nos continentes fez descer o nível dos oceanos em pelo menos 120 metros.

Esta descida provocou, em vários pontos do planeta, o aparecimento de diversas ligações terrestres entre os países atuais da Ásia e Oceania. A Austrália ficou ligada à Nova Guiné; As Filipinas à Indonésia; e o Japão teria se conectado à Coreia.

Outras teorias

Contudo, outras teorias também tentam explicar como os seres humanos conseguiram chegar aqui. Em 1943, o antropólogo francês Paul Rivet (1876-1958), levantou outra hipótese para a chegada do homem à América.

A teoria desenvolvida por ele afirmava que diversas tribos teriam utilizado canoas primitivas para ir de ilha em ilha rumo a leste, até chegar na América do Sul. A proposta apresentada pelo francês, no entanto, não negava a passagem do homem pela Beríngia.

Apenas defendia que teriam ocorrido duas rotas migratórias por meio de tais barcos. Uma primeira, 6 mil anos antes da realizada pelo Estreito de Bering, e uma segunda, praticamente no mesmo período.

“Luzia” tem 11 mil anos

Mas, a hipótese da travessia pelo norte do continente americano passou a ser ainda mais questionada em 1975, quando o crânio de uma mulher, apelidada de “Luzia”, foi encontrado na região de Lagoa Santa, em Minas Gerais.  O antigo fóssil teria cerca de 11 mil anos, mesma época das primeiras ocupações na América do Norte. 

Incluir a história do pesquisador que já estranhava o formato do rosto do povo de Lagoa Santa em 1808 (livro 1499)

A imagem foi eternizada após uma reconstituição facial feita pelo especialista britânico Richard Neave, na década de 1990.

Ganhou repercussão rapidamente, sobretudo pelo fato de que os restos mortais do mais antigo ser humano encontrado na América não tinha características típicas dos indígenas que viveram e vivem no Brasil ainda hoje.

Pelo contrário, teria mais semelhanças com negros africanos, ou com aborígines australianos, como boca e nariz largos e tom de pele escuro.

“Luzia” não era uma mulher alta para os padrões atuais. Tinha apenas 1,50 metro de altura. Sem moradia fixa, vivia perambulando pela região onde hoje está o Aeroporto Internacional de Confins, nos arredores de Belo Horizonte, junto com uma dúzia de parentes.

Nessa época, grandes alterações climáticas ocorreram no mundo. A Idade do Gelo havia chegado ao fim. O nível dos oceanos subiu e o clima frio passou por um gradual aquecimento.

A temperatura era pelo menos cinco graus mais fria que a atual. Animais gigantescos reinavam em savanas, campos e florestas, formando uma fauna exótica que acabou extinta. A Floresta Amazônica ainda não existia. Próximo aos rios havia árvores de até seis metros de altura.

A agricultura ainda não havia sido desenvolvida pelos seres humanos. Sem saber plantar um pé de alface sequer, o grupo vivia do que a natureza lhe oferecia.

Na maioria das vezes, a alimentação se resumia a alguns frutos – retirados de árvores mais baixas e retorcidas – uns coquinhos de palmeira, mandiocas e folhagens.

Em ocasiões especiais, dividia com seus companheiros um pedaço de carne de algum animal que conseguiam caçar eventualmente. Usavam ferramentas primitivas, fabricados a partir da pedra lascada. Também eram capazes de tecer redes e produzir pinturas rupestres.

Os hábitos alimentares desses humanos foram identificados com base em uma tabela internacional e a contagem do número de cáries encontrados nos dentes dos fósseis recolhidos na região onde estavam os restos mortais de “Luzia”.

Por essa tabela, índice de cáries de zero a 2% do total dos dentes indica um perfil de povos caçadores e coletores, com baixíssimas taxas de açúcar na dieta. Já entre 2% e 10% indica uma fase de transição, em que há uma agricultura rudimentar, com plantas que já introduzem açúcares na dieta.

Quando o índice chega a 30% de cáries – como é o caso do índio brasileiro, indica a existência de uma agricultura já estabelecida. 

A dentição dos homens de Lagoa Santa obteve-se um índice de 10%, o que o colocaria no grupo em que há uma agricultura rudimentar.

No entanto, os primeiros indícios da agricultura entre os povos mais antigos do Brasil datam de quatro mil anos, e como o grupo de Luzia viveu muito antes disso, os pesquisadores acreditam que tinha cáries porque comiam mais vegetais do que carne e vivia mais da coleta do que da caça.  

Eram tempos difíceis. Luzia morreu jovem, entre 20 e 25 anos de idade. Foi provavelmente vítima de um acidente, ou do ataque de um animal, e não teve direito nem mesmo a uma sepultura.

O corpo da jovem ficou jogado numa caverna, enquanto o grupo seguia em sua marcha errante pelo cerrado mineiro. Durante 11.500 anos, Luzia permaneceu num buraco, coberta por quase 13 metros de detritos minerais. 

No final da década de 1980, poucos anos depois que o crânio de “Luzia” havia sido encontrado, ao perceber que ele não tinha as mesmas características do crânio dos povos indígenas do nosso tempo, o professor aposentado do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), Walter Neves, apresentou uma nova hipótese para a chegada do homem à América.

O Bioantropólogo supôs que havia ocorrido dois processos de migração para a América: a primeira teria sido feita pelo povo de Luzia, que teria vindo da Austrália e da Melanésia, na Oceania, há cerca de 14 mil anos.

Ou seja, dois mil anos antes da chegada do povo vindo da Ásia pelo Estreito de Bering, que teria chegado há cerca de 12 mil anos. Os estudos sugeriam que o povo de “Luzia” teria se misturado com os grupos vindos da Sibéria, deixando apenas vestígios e nenhum descendente.

A teoria do professor, no entanto, foi refutada por um estudo mais recente, divulgado em novembro de 2018, feito por 72 pesquisadores de oito países.

Após análise genética de amostras de 49 esqueletos de diferentes países da América Latina – sendo dez provenientes de sítios arqueológicos brasileiros como Lagoa Santa, em Minas Gerais, e três do litoral brasileiro – que viveram entre 11 mil e 3 mil anos atrás, constatou-se a existência de um único grupo ancestral que deu origem a todas as etnias no continente. 

O novo estudo sugere que os ancestrais dos indígenas atuais migraram da América do Norte em direção ao sul e deixaram descendentes em lugares tão diversos quanto Belize, Peru, Brasil, Argentina e Chile, o que descarta a possibilidade de duas migrações. Resquícios dessa mesma sociedade foram encontrados na Sibéria e no norte da China.

Os descendentes da primeira corrente migratória, que chegou pela América do Norte, se diversificaram em duas linhagens há cerca de 16 mil anos. Parte desse grupo seguiu até o Panamá, onde cruzou uma pequena porção de terra conhecida como “istmo” e continuou viagem rumo à América do Sul. 

O historiador e antropólogo Luís da Câmara Cascudo afirma que “um desses povos se diferenciou dos demais e desenvolveu uma língua proto-tupi, no sul da Amazônia.”. Isso teria ocorrido entre os anos de 401 e 500, na região do atual estado brasileiro de Rondônia.

Embora uma hipótese alternativa aponte que povos Guarani, que habitavam a região dos rios Paraguai e Paraná, teriam migrado rumo ao leste, vindo a se misturar com os tupis, o que daria origem aos povos Tupi-Guarani.

O antropólogo francês Pierre Clastres, que se dedicou a estudar as sociedades indígenas da América do Sul, afirma que “em suas migrações […], os Guaranis eram orientados por líderes religiosos, os karai.”  Estes eram grandes xamãs-profetas que, com a força de suas palavras, convenciam multidões de indígenas a seguirem em busca da chamada “terra sem males”, ou “Yvy marã e’ỹ”, na língua guarani. 

Os dados genéticos mostram que o povo de “Luzia” tem forte conexão os primeiros humanos que chegaram na região do Alasca. Contudo, até pouco tempo, a arqueologia não tinha conhecimento de que esse grupo teria chegado até a região de Minas Gerais.

O que se sabe sobre eles é que, por algum motivo ainda desconhecido, essa população não teria perdurado por muito tempo. “A partir de cerca de 9 mil anos atrás ela desaparece, sendo substituída pelos ancestrais diretos dos grupos indígenas que habitavam o Brasil durante o período colonial”, indica o estudo.

O resultado é importante porque altera a visão dos cientistas sobre diversos aspectos, inclusive de como seria o rosto de “Luzia”.

O novo estudo sugere asiáticos, como os ancestrais dos indígenas americanos, totalmente diferentes daquele feito na primeira reconstituição da fisionomia de “Luzia”, que tinha como base a teoria das duas migrações, feita pelo professor Walter Neves.

A mais antiga brasileira conhecida até então ganhou um novo rosto. O trabalho foi feito por Caroline Wilkinson, da Liverpool John Moores University, na Inglaterra, especialista em reconstrução forense e discípula de Neave.

Apesar da indiscutível relevância para os estudos da ocupação do continente americano, o estudo não descarta de imediato a teoria das duas migrações do professor Neves. 

De toda a forma, as pesquisas arqueológicas e paleontológicas continuam na América. A cada dia, novas descobertas vão ampliando o debate sobre os povos formadores do nosso continente.

Sem chegar a um consenso final, pesquisadores dedicam tempo, recursos financeiros e paixão para estudar os vestígios pré-históricos americanos para tentar chegar o mais próximo possível de como teria sido o início da ocupação de América milênios antes da chegada dos navegadores europeus.

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