Jardim América (Cariacica): Da Vila Ferroviária ao Polo Comercial

Conheça como surgiu Jardim América, em Cariacica, Espírito Santo. O bairro foi um dos primeiros conjuntos habitacionais do estado.

A origem de Jardim América em Cariacica

Até 1947, quem saísse de Vitória, capital do Estado do Espírito Santo, e atravessasse a Ponte Florentino Avidos, seguindo pela Estrada de Vila Velha – atual Avenida Carlos Lindenberg – veria a seguinte cena: uma extensa área de terreno baixo, deserta e coberta por um brejo.

Essa deu origem ao bairro Jardim América, o quarto mais populoso de Cariacica.

A primeira escritura pública de compra e venda da área foi lavrada no século 19. O documento, registrado em 23 de setembro de 1827 revela que, nessa época, havia na região uma propriedade rural, a Fazenda de Paul, cujo dono era o padre André Vitoriano Delgado.

A fazenda passou por treze proprietários até ser vendida, em 1934, pela família Vieira. O comprador foi o topógrafo, marceneiro e construtor Hugo Viola, um carioca de influência socialista, que transformaria completamente o destino daquelas terras.

Quem foi Hugo Viola: o fundador de Jardim América

Voltemos algumas décadas antes da origem do bairro Jardim América para saber quem foi Hugo Viola.

Descendente de italianos, Hugo Viola nasceu em 1896 e chegou ao Espírito Santo cerca de 38 anos depois. Era dono de uma marcenaria em Vitória e tinha seis filhos.

Trabalhou na construção dos aeroportos de Vitória, de São Paulo, Rio de Janeiro e Goiás. Para driblar as perseguições políticas durante o governo de Getúlio Vargas, registrou-se como natural do então Distrito Federal, a cidade do Rio de Janeiro.

Mas, por ser considerado comunista, acabou sendo preso algumas vezes, aqui no Espírito Santo, durante a administração do Governador Bley. 

Dois anos depois de ter comprado a fazenda Paul, Hugo Viola fundou a Companhia de Melhoramentos de Vitória S/A, em 17 de janeiro de 1936.

Em seguida, transformou a propriedade rural em um loteamento. O plano de habitação do local foi realizado de acordo com o decreto 3.079, de 15 de setembro de 1937.

Primeiro conjunto habitacional do ES

Assim, no dia 10 de novembro de 1942, foi inaugurada a Vila Malcher de Souza, um dos primeiros conjuntos habitacionais dos quais se tem notícia no Brasil, que abrigava inicialmente 26 casas. 

surgiu Jardim América
Oswaldo Viola (filho)
foto: Milton Sampaio – Jornal A Tribuna –
29/08/2003

A primeira residência construída no novo bairro foi a da família Viola.

E mesmo depois da morte do de Hugo Viola, em 11 de maio de 1953, no bairro Santa Helena, em Vitória, os descendentes permaneceram na região.

Quando fundou o loteamento, Hugo Viola tinha o objetivo de que a então Vila Malcher fizesse parte da cidade de Vitória.

Ele só não chegou a morar no imóvel porque a residência não havia ficado pronta.

Ele mesmo abriu ruas e impediu que o poder público fizesse a pavimentação sem a obra de drenagem. Para tentar evitar enchentes, limpava o leito do Rio Marinho por conta própria. Um problema que faria parte da história de Jardim América por várias décadas.

Valão em Jardim América
Foto: Instituto Jones dos Santos Neves

Um exemplo que, infelizmente não foi seguido pelas gerações seguintes. Por décadas após o esgoto foi despejado – e continua sendo – nas águas do rio sem passar por nenhum tipo de tratamento.

Devido à poluição e o mau cheiro, o Rio Marinho passou a ser vulgarmente conhecido como “valão de Cobilândia”, nome de um dos bairros ribeirinhos. Mas, essa é outra história.

Até 1946, havia apenas três moradores no local. As casas ainda não tinham energia elétrica, por isso, durante a noite, era preciso usar lamparinas à base de querosene para ter alguma claridade.

A comida era feita em fogões à lenha. E não era incomum para os moradores dormir ao som dos grilos que viviam na região pantanosa.

Para tentar valorizar a região e atrair mais moradores, Hugo Viola doou cerca de 6 mil metros quadrados do terreno para o Instituto da Estiva.

A condição era de que a empresa ajudasse a erguer casas na área. E a ideia deu certo.

No ano seguinte, 1947, a Companhia de Melhoramentos de Vitória construiu mais 74 residências no local, totalizando 100 casas populares na região. E foi assim que surgiu Jardim América, em Cariacica.

como surgiu jardim américa
Foto: acervo da família Viola

Os terrenos tinham 300 metros quadrados. As residências eram vendidas por 300 mil cruzeiros. Tinham dois quartos, uma sala, cozinha, banheiro e varanda.

O valor era dividido em parcelas de 34 mil cruzeiros para quem não tinha condições de pagar à vista.

Um bom negócio, numa época em que não havia juros e nem correção monetária.

A primeira igreja da localidade também foi construída por Hugo Viola com recursos próprios. A região ganhou uma unidade de ensino e um ônibus que transportava os moradores ao Centro de Vitória. Tudo fruto de um esforço pessoal do topógrafo. 

A vila vira bairro

O conjunto habitacional, que mais tarde batizado com o nome de Jardim América, amenizou o déficit habitacional em Vitória, um dos grandes problemas da capital na época.

E mesmo hoje, a falta de moradias ainda assombra governantes de estados e municípios pelo país afora.

O nome Jardim América foi escolhido pelo próprio Hugo Viola. A inspiração veio do bairro nobre, de mesmo nome, onde ele passou a maior parte da infância, na zona oeste de São Paulo.

Jardim América Cariacica
Foto: Instituto Jones dos Santos Neves

Na década de 1940, o Jardim América capixaba começou a ganhar melhorias. A iluminação pública, por exemplo, começou a ser instalada em parte da rua Paraguai, que se tornaria uma das mais importantes do bairro.

Apesar do primeiros passos de urbanização, a comunidade ainda era pequena se comparada aos dias atuais. Os moradores se conheciam e viviam numa aparente tranquilidade. 

Para se ter uma ideia, todas as manhã, um padeiro passava de casa em casa levando pão e o leite.

Ele deixava os produtos pendurados nas portas das casas em sacolas. Aos sábados, passava recolhendo o pagamento.

O dinheiro era deixado pelos moradores pendurado nas portas e não havia o risco de a quantia ser roubada. Algo inimaginável atualmente.

Outra diversão no bairro era pegar caranguejo, rãs e pequenos peixes no mangue. No mês de março, quando a maré subia, os caranguejos chegavam a pular nas pernas dos moradores. 

Jardim América Cariacica
Foto: Instituto Jones dos Santos Neves

Mas, a população também enfrentava diversos problemas. Um deles era a falta d’água nas casas. Algo que ocorria com certa frequência.

Nessa época, o trem de minério passava dentro do bairro pelo menos duas vezes ao dia, pela manhã e à noite.

Tinha, ainda, o problema da falta de pavimentação nas ruas do bairro até 1949.

Quando chovia, as vias ficavam cheias de lama. “Muitas vezes, era preciso lavar os calçados antes de entrar na igreja para assistir à missa aos domingos”, afirma Oswaldo Viola. 

A chegada da indústria em Jardim América

Grande parte dos moradores de Jardim América era de família italiana.

Muitos deles saíram da atual cidade de João Neiva, na época distrito de Ibiraçu, no norte do Espírito Santo, para trabalhar na Companhia Vale do Rio Doce e também na Companhia Ferro e Aço de Vitória (Cofavi), que se instalaram no bairro.

A indústria ainda está no bairro. Mas, agora tem outro nome e pertence a uma multinacional.

As ruas só começaram a ser pavimentadas no final da década de 1950. Nessa época, em 1954, foi fundada e primeira escola de música do bairro. Lá era ensinado violão, flauta, órgão e piano.

E o primeiro aluno a aprender violão nessas aulas acabou se tornado um dos nomes de grande sucesso da música brasileira: o cantor Altemar Dutra, que morreu precocemente no dia 9 de novembro de 1983, em Nova York, nos Estados Unidos, vítima de um derrame cerebral.

Quando estava vivo, mesmo após o estrondoso sucesso, o ídolo costumava visitar o bairro para rever o professor.

História de Jardim América
Foto: Instituto Jones dos Santos Neves

As novas ruas foram batizadas com nomes de países: Paraguai, México, Canadá, América Guiana e Colômbia.

Nessa época, a parte alta do bairro também começou a ser loteada. Passou a ter casas amplas e com melhor acabamento.

A maioria dos moradores queriam fugir dos constantes alagamentos na parte baixa do bairro.

A parte que ainda era pantanosa, nas áreas mais baixas, se transformou com o passar dos anos.

Somente o traçado das ruas foi mantido do projeto original. Com as melhorias, o bairro foi crescendo. Zonas comerciais e residenciais se misturaram. A maior concentração de estabelecimentos comerciais era na rua Paraguai.

História de Jardim América
Foto: Instituto Jones dos Santos Neves

Até os anos 1970, Jardim América era o principal centro urbano do município.

E passou a ter ainda mais importância após a construção da Ponte do Príncipe, que ficou conhecida como segunda ponte, no começo dos anos 1980.

Nos anos 1990, o bairro tinha diversos estabelecimentos comerciais, agências bancárias, delegacia de polícia, cartórios e dois cinemas. 

Até cenas de um filme (Lamarca – 1994) foram gravadas aqui. Foram filmadas na avenida Espírito Santo, em frente à antiga Belgo Mineira, no começo dos anos 1990.

Conta a história do guerrilheiro Carlos Lamarca, que deserdou do Exército no período da ditadura militar para se juntar aos contrário ao golpe.

O metro quadrado para imóveis não-residenciais chegava a custar vinte e dois mil cruzeiros – o equivalente a aproximadamente 800 reais. Mas, os imóveis na BR 262, a mais valorizada do bairro nessa época, eram até 500% mais caros. 

Como surgiu Jardim América
Foto: Instituto Jones dos Santos Neves

Essa é uma parte da história de Jardim América. Hoje o bairro conta com cerca de oito mil habitantes. Uma das poucas homenagens prestadas ao fundador é uma praça que foi batizada com o nome dele.

Apesar da insegurança e dos problemas típicos dos bairros da Região Metropolitana da Grande Vitória, a comunidade de Jardim América, em Cariacica, sempre cobra ações do poder público para que o bairro não seja esquecido e abandonada.

Gostou de conhecer um pouco da história de Jardim América? Quer saber mais sobre a história dos outros bairros de Cariacica? É só acessar nossa página e viajar pelo desenvolvimento da cidade.

Saiba mais!

Quem foi Hugo Viola?

Hugo Viola era descendente de italianos. Nasceu em 1896 e chegou ao Espírito Santo cerca de 38 anos depois. Era dono de uma marcenaria em Vitória e tinha seis filhos.

Trabalhou na construção dos aeroportos de Vitória, de São Paulo, Rio de Janeiro e Goiás. Registrou-se como natural do Rio de Janeiro – então Distrito Federal – para driblar as perseguições políticas durante o governo de Getúlio Vargas.

Qual é a região do Jardim América?

O bairro Jardim América, em Cariacica, faz parte da Região Administrativa 6. Também fazem parte os bairros Vasco da Gama, Vale Esperança, Boa Sorte, Bela Aurora, Vista Mar e Sotelândia.

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