Um bate-papo sobre censura, agenda midiática, audiência e os bastidores do telejornalismo com Paulo Eduardo Vieira, diretor de jornalismo da Rede Integração (afiliada Globo).

Paulo Eduardo Vieira

Um bate-papo sobre censura, agenda midiática, audiência e os bastidores do telejornalismo com Paulo Eduardo Vieira, diretor de jornalismo da Rede Integração (afiliada Globo).

 

 

O jornalista Paulo Eduardo Vieira nasceu de Anápolis, em Goiás. Ele se formou em jornalismo pela Universidade Federal de Goiás. Já atuou em diversas empresas de comunicação das regiões centro-oeste e sudeste do país. Atualmente o Paulo reside na cidade mineira de Uberlândia, onde é diretor de jornalismo da Rede Integração – afiliada da Rede Globo.

  Geilson Ferreira – Pierre Bourdieu, autor do livro “Sobre a televisão”, menciona que a atividade jornalística neste veículo sofre algumas censuras vindas de proprietários, anunciantes, governo, etc. Existe realmente  essa censura? Você já sofreu algum tipo de censura na televisão?   Paulo Eduardo – Propriamente na Rede Integração não. Mas já tive em outros veículos que trabalhei por causa da relação política de seus proprietários. Muitas vezes ela não chega a se manifestar como uma proibição de veicular algo que foi coberto. Ela simplesmente ocorre por nem se tocar naquele assunto ou na possibilidade de registrá-lo. Acaba por envolver editores-chefes ou a direção do jornalismo já fazendo uma filtragem anterior. O assunto muitas vezes caí já na discussão de pauta. Ou, após todos saberem da linha da empresa, os assuntos sobre o tema censurado nem eram propostos. Esse fenômeno é freqüente em empresas que tenham algum envolvimento com partidos ou políticos. O efeito é bem menor nas empresas onde o foco é empresarial e técnico. Pois de nada adianta “salvar” um cliente e perder o assunto comprometendo sua credibilidade e audiência, afetando o restante da carteira de outros clientes. Que anunciam por causa da audiência e da credibilidade.   Geilson Ferreira – O autor também menciona que o jornalismo televisivo, em muitos momentos, costuma mostrar algo de forma tão complexa ou muito rápida que, por fim, acaba não mostrando o que deveria. Você acha que é possível exibir um fato ocultando ao mesmo tempo?   Paulo Eduardo – Certamente. E isso é mais claro em sociedades onde o público é menos crítico. Daí a educação ser a melhor arma não só contra a corrupção, os desmandos estatais mas também contra uma imprensa comprometida com interesses ocultos. Pois havendo consumidor consciente, ele mesmo filtrará nos veículos aquilo queele sabe que é a opinião do dono. Continuará consumindo, mas de maneira crítica. Pois o problema não é o dono ter um interesse, mas ele ocultar esse interesse no conteúdo, formando uma “agenda oculta”. Se todos sabem que esse jornal, aquela TV ou a rádio defendem determinado ponto-de-vista, vai consumir aquele conteúdo quem concorda ou quem quer analisar aquela visão.Com relação a mostrar e ainda assim ocultar, isso é claro quando se exibe o fato mas se limita a análise do mesmo a uma posição ou opinião apenas. Dirigindo a opinião do público.   Geilson Ferreira – Os jornalistas afirmam que é indispensável ler pelo menos dois jornais por dia. Pierre Bourdieu diz que somente jornalistas tem esse hábito. Ele acrescenta que essa atitude faz com que as informações entrem em um circulo vicioso, em que, um jornalista lê a matéria do outro e faz uma nova matéria na tentativa de não “levar um furo” e vice-versa. Quantos jornais você costuma ler por dia?   Paulo Eduardo – Em papel apenas um. O jornal local da cidade. Na internet leio 2 jornais de Uberaba. Com os jornais na web essa leitura acaba sendo mais abrangente. Porém, mais superficial. Além disso, tenho uma lista de sites de veículos e de fontes que têm visita diária obrigatória. E nossa equipe tem (cada um) responsabilidade porchecar uma determinada listagem de fontes costumeira na internet.   Geilson Ferreira – Você acredita que existe esse circulo da informação?   Paulo Eduardo – Com certeza. Há quem defina isso como uma espécie de “agenda setting”. Onde os assuntos já são definidos pelo sistema. Pois mesmo que não julgue que há uma novidade a noticiar, por todos os veículos estarem noticiando, o seu veículo acaba impelido a fazer o mesmo pelo risco de ser furado. Acabam todos furadospor algum assunto não previsto. Esse caso é claro em fatos como o da menina que foi jogada do prédio. Mesmo sem novidades todos insistiam em ocupar seus noticiários pelo temor de não dar nada e o público ir procurar informação em outro canal. O público e seu interesse repetitivo por alguns assuntos também colabora com isso. Num ciclo interminável.   Geilson Ferreira – Na sua opinião, a urgência em divulgar os fatos, a audiência e a concorrência são fatores que influenciam direta ou indiretamente o jornalismo na televisão?  
 

Paulo Eduardo – Diretamente. Pois de nada adianta ter o melhor ponto-de-vista do fato e ser o último a noticiar. Por mais que tenha algo inovador, para o público será notícia velha. Da mesma forma faz pouca diferença dar o furo jornalístico mas ninguém assistir você. Pois a própria repercussão do fato atrai credibilidade para seu veículo. Daí a audiência ser fundamental.

  Geilson Ferreira – Como é feita a seleção dos entrevistados para os programas na emissora em que você trabalha?   Paulo Eduardo – De acordo com o tema que está sendo abordado. Sempre procuramos a pessoa mais conceituada no meio sobre o assunto para a entrevista. Ou a diretamente ligada ao assunto, claro.
Geilson Ferreira – Qual é o critério para a seleção das perguntas?   Paulo Eduardo – Extrair o máximo de informação, de forma mais didática e clara possível. Às vezes, contrapor o entrevistado de forma a expor ao público se ele realmente tem conhecimento do assunto e segurança na sua exposição.

Geilson Ferreira – Existe algum critério para a montagem dos cenários dos programas na emissora em que você atua?
Paulo Eduardo –
 Seguimos o padrão definido por nossa rede. Porém esse padrão está cada vez mais flexível. De qualquer forma sempre segue algumas premissas. A beleza estética, a utilidade e a não distração do público a ponto de focar mais no que o cenário oferece do que no conteúdo que está sendo transmitido. Tanto o conteúdo, osapresentadores, a narração e o  cenário devem formar um conjunto harmônico onde o foco seja a notícia.   Geilson Ferreira – Nos debates políticos já houve algum caso de candidatos que, ao vivo, pareciam inimigos e fora do ar agiam como amigo de longa data?   Paulo Eduardo – Não só em debates. Isso é uma prática. Infelizmente os brasileiros em momentos como as eleições são levados a pensar que se travam verdadeiras batalhas de sangue. Isso é fato em algumas localidades. Mas são políticos. E a arte da política é a negociação. São concessões e exigências dos dois lados visando obem de todos. Portanto, falta ao brasileiro entender que o embate de idéias para conquistar votos não significa embate físico. Daí parecer ao brasileiro muitas vezes quando adversários de uma eleição se tornam aliados em outra que um ou outro se vendeu. Apesar de às vezes isso ocorrer. Quem perde com isso é a própria política e o sistema político.






Paulo Eduardo fala sobre a televisão — Geilson Ferreira



Entrevista · Trabalho Acadêmico

Paulo Eduardo fala sobre a televisão

Um bate-papo sobre censura, agenda midiática, audiência e os bastidores do telejornalismo com Paulo Eduardo Vieira, diretor de jornalismo da Rede Integração (afiliada Globo).

GF
Geilson Ferreira

8 de setembro de 2026

6 min de leitura

PE

Paulo Eduardo Vieira

Jornalista formado pela Universidade Federal de Goiás, natural de Anápolis (GO). Atuou em veículos do Centro-Oeste e Sudeste do país; hoje reside em Uberlândia (MG), onde é diretor de jornalismo da Rede Integração — afiliada da Rede Globo.

GF
Geilson Ferreira pergunta
Pierre Bourdieu, autor do livro “Sobre a televisão”, menciona que a atividade jornalística neste veículo sofre algumas censuras vindas de proprietários, anunciantes, governo, etc. Existe realmente essa censura? Você já sofreu algum tipo de censura na televisão?
PE
Paulo Eduardo responde
Propriamente na Rede Integração não. Mas já tive em outros veículos que trabalhei por causa da relação política de seus proprietários. Muitas vezes ela não chega a se manifestar como uma proibição de veicular algo que foi coberto. Ela simplesmente ocorre por nem se tocar naquele assunto ou na possibilidade de registrá-lo. Acaba por envolver editores-chefes ou a direção do jornalismo já fazendo uma filtragem anterior. O assunto muitas vezes caía já na discussão de pauta, ou, após todos saberem da linha da empresa, os assuntos sobre o tema censurado nem eram propostos. Esse fenômeno é frequente em empresas que tenham algum envolvimento com partidos ou políticos. O efeito é bem menor nas empresas onde o foco é empresarial e técnico — pois de nada adianta “salvar” um cliente e perder o assunto comprometendo sua credibilidade e audiência, afetando o restante da carteira de outros clientes, que anunciam por causa da audiência e da credibilidade.
GF
Geilson Ferreira pergunta
O autor também menciona que o jornalismo televisivo, em muitos momentos, costuma mostrar algo de forma tão complexa ou muito rápida que, por fim, acaba não mostrando o que deveria. Você acha que é possível exibir um fato ocultando ao mesmo tempo?
PE
Paulo Eduardo responde
Certamente. E isso é mais claro em sociedades onde o público é menos crítico. Daí a educação ser a melhor arma não só contra a corrupção, os desmandos estatais, mas também contra uma imprensa comprometida com interesses ocultos. Pois havendo consumidor consciente, ele mesmo filtrará nos veículos aquilo que sabe ser a opinião do dono — continuará consumindo, mas de maneira crítica. O problema não é o dono ter um interesse, mas ele ocultar esse interesse no conteúdo, formando uma “agenda oculta”. Se todos sabem que esse jornal, aquela TV ou a rádio defendem determinado ponto de vista, vai consumir aquele conteúdo quem concorda ou quem quer analisar aquela visão. Com relação a mostrar e ainda assim ocultar, isso fica claro quando se exibe o fato, mas se limita a análise do mesmo a uma posição ou opinião apenas, dirigindo a opinião do público.

“O problema não é o dono ter um interesse, mas ele ocultar esse interesse no conteúdo, formando uma agenda oculta.”

— Paulo Eduardo Vieira

GF
Geilson Ferreira pergunta
Os jornalistas afirmam que é indispensável ler pelo menos dois jornais por dia. Pierre Bourdieu diz que somente jornalistas têm esse hábito, e que essa atitude faz com que as informações entrem em um círculo vicioso, em que um jornalista lê a matéria do outro e faz uma nova matéria na tentativa de não “levar um furo”, e vice-versa. Quantos jornais você costuma ler por dia?
PE
Paulo Eduardo responde
Em papel, apenas um — o jornal local da cidade. Na internet, leio dois jornais de Uberaba. Com os jornais na web, essa leitura acaba sendo mais abrangente, porém mais superficial. Além disso, tenho uma lista de sites de veículos e de fontes que têm visita diária obrigatória, e nossa equipe tem, cada um, a responsabilidade por checar uma determinada listagem de fontes costumeiras na internet.
GF
Geilson Ferreira pergunta
Você acredita que existe esse círculo da informação?
PE
Paulo Eduardo responde
Com certeza. Há quem defina isso como uma espécie de “agenda setting”, onde os assuntos já são definidos pelo sistema. Mesmo que não se julgue que há uma novidade a noticiar, por todos os veículos estarem noticiando, o seu veículo acaba impelido a fazer o mesmo pelo risco de ser furado. Esse caso é claro em fatos como o da menina que foi jogada do prédio: mesmo sem novidades, todos insistiam em ocupar seus noticiários pelo temor de não dar nada e o público ir procurar informação em outro canal. O público e seu interesse repetitivo por alguns assuntos também colabora com isso, num ciclo interminável.
GF
Geilson Ferreira pergunta
Na sua opinião, a urgência em divulgar os fatos, a audiência e a concorrência são fatores que influenciam direta ou indiretamente o jornalismo na televisão?
PE
Paulo Eduardo responde
Diretamente. De nada adianta ter o melhor ponto de vista do fato e ser o último a noticiar — por mais que tenha algo inovador, para o público será notícia velha. Da mesma forma, faz pouca diferença dar o furo jornalístico se ninguém assistir você, pois a própria repercussão do fato atrai credibilidade para o veículo. Daí a audiência ser fundamental.
GF
Geilson Ferreira pergunta
Como é feita a seleção dos entrevistados para os programas na emissora em que você trabalha?
PE
Paulo Eduardo responde
De acordo com o tema que está sendo abordado. Sempre procuramos a pessoa mais conceituada no meio sobre o assunto para a entrevista, ou a diretamente ligada ao assunto.
GF
Geilson Ferreira pergunta
Qual é o critério para a seleção das perguntas?
PE
Paulo Eduardo responde
Extrair o máximo de informação, da forma mais didática e clara possível. Às vezes, contrapor o entrevistado de forma a expor ao público se ele realmente tem conhecimento do assunto e segurança na sua exposição.
GF
Geilson Ferreira pergunta
Existe algum critério para a montagem dos cenários dos programas na emissora em que você atua?
PE
Paulo Eduardo responde
Seguimos o padrão definido por nossa rede, embora esse padrão esteja cada vez mais flexível. De qualquer forma, sempre seguimos algumas premissas: a beleza estética, a utilidade e a não distração do público a ponto de focar mais no que o cenário oferece do que no conteúdo transmitido. Tanto o conteúdo quanto os apresentadores, a narração e o cenário devem formar um conjunto harmônico onde o foco seja a notícia.
GF
Geilson Ferreira pergunta
Nos debates políticos já houve algum caso de candidatos que, ao vivo, pareciam inimigos e, fora do ar, agiam como amigos de longa data?
PE
Paulo Eduardo responde
Não só em debates — isso é uma prática. Infelizmente os brasileiros, em momentos como as eleições, são levados a pensar que se travam verdadeiras batalhas. Mas são políticos, e a arte da política é a negociação: são concessões e exigências dos dois lados visando o bem de todos. Falta ao brasileiro entender que o embate de ideias para conquistar votos não significa embate físico. Daí parecer, muitas vezes, que adversários de uma eleição que se tornam aliados em outra “se venderam” — apesar de às vezes isso realmente ocorrer. Quem perde com isso é a própria política e o sistema político.
GF

Geilson Ferreira

Jornalista com quase duas décadas de atuação em televisão, historiador e cientista da computação. Escreve sobre jornalismo, história e dados no Espírito Santo. Saiba mais →


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